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Soldar ferro fundido

O ferro fundido não é insoldável; exige outra ordem de trabalhos: cordões curtos, pouco calor e martelagem — ou o percurso completo com forno.

Uma fissura numa peça de ferro fundido com cordões curtos e espalhados e um gráfico de temperatura da peça: dentes de serra contra uma subida contínua
A ordem dos cordões não é arrumação — é a única coisa que mantém a peça fria e a única que impede uma fissura nova ao lado do cordão.

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Onde está o problema

No carbono. É ele que torna o ferro fundido vazável e amortecedor, mas é ele que torna a zona afectada dura e frágil assim que arrefece depressa. Junta-se a isso o facto de o ferro fundido cinzento praticamente não ter alongamento: o que não se deforma, parte.

A zona afectada pelo calor passa a ferro fundido branco. O arrefecimento rápido transforma a estrutura com grafite em cementite dura e frágil. Essa faixa fica dura como vidro, não se maquina e fissura com a tensão de contracção do próprio cordão.

As peças velhas estão contaminadas. Décadas de óleo, líquido de refrigeração e produtos de combustão entram na superfície porosa e saem como gás durante a soldadura. Um bloco de motor que parece limpo não está.

O caminho a frio

Eléctrodos de níquel ou de níquel-ferro, corrente baixa, cordões de 25 a 40 mm, martelar depois de cada cordão e deixar arrefecer até a mão aguentar a zona. O níquel é o metal de adição certo porque o seu depósito fica mole e absorve a contracção deformando-se, em vez de a passar ao metal de base.

Furar as extremidades da fissura antes, para ela não continuar a correr. Esmerilar bem os bordos — o ferro fundido está quase sempre embebido em óleo, e o óleo tem de sair por queima ou por esmeril, senão o cordão dá poros.

O caminho a quente

Pré-aquecer a 500 a 600 °C, soldar com adição do mesmo tipo do fundido e arrefecer lentamente no forno — ao longo de horas. Só este caminho dá uma junta igual ao metal de base, que depois se maquina como ele. Exige, porém, um forno e uma peça que lá caiba, e por isso fica de fora na maior parte das reparações.

O que decide é o arrefecimento, não a soldadura. Deixe arrefecer ao ar uma peça pré-aquecida e terá produzido exactamente a estrutura endurecida que o pré-aquecimento devia evitar.

A frioA quente
Pré-aquecimentonenhum ou até 100 °C500–600 °C, a peça inteira
Eléctrodode níquel: Ni, NiFe, NiCuvareta de ferro fundido
Correnteo mínimo possívelo normal de trabalho
Técnicatroços de 20–40 mm, martelar, deixar arrefecerde contínuo, enquanto está quente
Arrefecimentoao arlento, em areia ou no forno
Onde se usareparação em oficinapeças críticas e grossas

O que esperar

Uma reparação a frio com níquel num suporte, numa carcaça ou num colector é uma reparação a sério e aguenta. Numa peça que tem de ser maquinada depois, a reparação a frio costuma desiludir: a zona afectada sai mais dura do que a ferramenta. E uma fissura que atravessa uma secção muito carregada de uma peça velha pode simplesmente não compensar — a peça nova sai muitas vezes mais barata do que a terceira tentativa.

Que ferro fundido é: cinzento, nodular, maleável ou branco

«Ferro fundido» são quatro materiais que se soldam de maneira muito diferente. O que muda é a forma do carbono, não a quantidade, por isso primeiro identifica-se a peça e só depois se escolhe o método.

TipoDesignaçãoComo reconhecerSoldadura
CinzentoEN-GJL, EN 1561 (GG) Fractura escura e granulosa, som abafado, apara em pó; carcaças, blocos, barramentos A frio com níquel ou a quente
Nodular (dúctil)EN-GJS, EN 1563 (GGG) Fractura mais clara e fina, soa ao bater, a apara enrola Sim, melhor que o cinzento; NiFe
MaleávelEN-GJM, EN 1562 (GTS, GTW) Peças pequenas de parede fina, acessórios de tubagem; reconhece-se pela peça e pela marcação Limitada: o calor desfaz localmente o tratamento térmico
Branco— Fractura prateada, a lima escorrega, a broca não corta; peças de desgaste Praticamente não soldável

Marcação e testes rápidos

Na designação europeia o número é a resistência mínima à tracção em MPa: EN-GJL-250 é ferro fundido cinzento com pelo menos 250 MPa. Os nodulares juntam o alongamento em percentagem: EN-GJS-400-15 significa 400 MPa e 15 %. Máquinas antigas trazem os nomes DIN GG-25 e GGG-40 para os mesmos graus. Sem marcação, a faísca na rebarbadora distingue ferro fundido de aço (jactos curtos e avermelhados contra os longos e ramificados do aço), a fractura e o som distinguem cinzento de nodular, e uma lima que não morde em lado nenhum significa ferro fundido branco — não se solda. O carbono equivalente não se aplica: as fórmulas foram feitas para aços com décimas de por cento de carbono e perdem o sentido a 2–4 %.

Com que soldar ferro fundido: eléctrodo Ni ou NiFe

Dois tipos de eléctrodo de níquel, Ni-CI e NiFe-CI segundo EN ISO 1071 (ENi-CI e ENiFe-CI na AWS A5.15). No catálogo do site são o ESAB OK 92.18 e o UTP 86 FN: revestimento básico, DC+, ressecagem a 150–250 °C.

  • Ni — o depósito mais macio; o melhor quando a reparação vai ser furada ou maquinada e em paredes finas; mais fraco em secções grossas e carregadas.
  • NiFe — mais resistente e mais tolerante com material sujo; para nodular, paredes grossas, enchimentos em várias camadas e ligações a aço (ver soldar aços dissimilares).

Num chanfro grande combinam-se os dois: amanteigar as faces com Ni, encher com NiFe.

Soldar ferro fundido a frio, passo a passo

À esquerda: uma fissura numa placa de ferro fundido vista de cima, com um furo logo além de cada ponta. À direita: secção de um chanfro em V rebarbado ao longo da fissura até ao metal são
Primeiro trava-se a fissura com um furo depois de cada ponta, depois abre-se o chanfro até ao metal são — só então se queima o óleo e se solda com níquel.

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  1. Encontrar a fissura toda. Os líquidos penetrantes mostram a ponta; numa peça oleosa basta aquecer ligeiramente com o maçarico — o óleo que sai desenha a fissura como uma linha escura.
  2. Fazer um furo de 3–4 mm logo além de cada ponta.
  3. Abrir a fissura até ao metal são, com o fundo arredondado em vez de um V agudo.
  4. Queimar o óleo — cárteres, blocos e caixas de velocidades estão encharcados. Aquecer até deixar de fumegar e dar um cordão de ensaio curto; se o banho ferver, rebarbar e queimar outra vez.
  5. Corrente baixa: cerca de 25 A por milímetro de diâmetro (exemplo abaixo).
  6. Amanteigar as faces com uma camada fina de níquel: fica com o carbono, e o enchimento assenta depois sobre níquel.
  7. Cordões de 20–40 mm, alternados, cada um martelado logo, a quente.
  8. Esperar até a peça estar morna à mão antes do cordão seguinte; deixar arrefecer sozinha, sem água nem ar comprimido.

Corrente: um exemplo com números

A 25 A por milímetro: 2,5 mm × 25 ≈ 62 A (regular 60–65 A), 3,2 mm × 25 = 80 A, 4,0 mm × 25 = 100 A. Com os 35 A/mm habituais, o eléctrodo de 3,2 mm levaria 112 A, mais 40 %. Descer enquanto o arco se mantiver estável; um cordão pousado por cima como uma gota, sem molhar os bordos, quer dizer corrente a menos.

Soldar a quente na prática

A peça inteira vai a 500–600 °C, o valor da tabela — não só a zona da fissura, porque o aquecimento local cria precisamente a diferença de temperatura que fissura o ferro fundido. Aquece-se devagar num forno ou num recinto de tijolo e mantém-se assim durante todo o trabalho. O caminho tradicional é a soldadura oxiacetilénica: chama neutra, vareta de ferro fundido e um fundente para ferro fundido que dissolve a película de óxido do banho. Depois a peça arrefece muitas horas no forno fechado ou em areia seca. A junta fica igual à peça e maquina-se como ela, por isso o método fica reservado a peças pesadas e caras.

Alternativas à soldadura: brasagem e costura a frio

Soldobrasagem com latão

O ferro fundido não funde: o chanfro é aquecido com o maçarico oxiacetilénico até uma vareta de latão com fundente molhar a superfície e a encher. Sem ferro fundido em fusão não há ferro fundido branco numa linha de fusão, e o calor é muito menor. Serve para peças finas e tampas que têm de ficar estanques. A junta é mais fraca do que a peça, amolece se a peça trabalhar quente, fica amarela à vista e o latão liberta fumos de zinco — trabalhar com extracção.

Costura a frio (Metalock e semelhantes)

Sem calor nenhum: ao longo da fissura abrem-se furos roscados sobrepostos, enchidos com pernos cravados à face, e através da fissura colocam-se chavetas perfiladas que puxam os bordos um contra o outro. Não há zona afectada pelo calor nem empeno, e grandes blocos de motor, estruturas de prensas e carcaças reparam-se no local.

Como escolher: fissura num suporte ou numa carcaça — soldadura a frio com níquel; peça fina ou estanque — soldobrasagem; peça grande que não pode ser aquecida — costura; peça a maquinar — soldadura a quente.

Erros típicos e como os reconhecer

  • Uma fissura ao lado do cordão ao fim de minutos, muitas vezes com um estalo: a peça aqueceu de mais — cordões longos, sem pausa, sem martelagem.
  • Banho a ferver e poros: óleo. Mais corrente não resolve; queimar outra vez.
  • Um bordo branco e duro onde a broca escorrega: ferro fundido branco depois de eléctrodo de aço, corrente alta ou arrefecimento rápido. Com níquel, uma faixa fina é normal.
  • Eléctrodo de aço numa peça carregada: fissuras ao longo da linha de fusão ao fim de poucos dias.

Mais sobre tipos de fissuras: fissuras na soldadura. A calculadora de pré-aquecimento trabalha para aço segundo a EN 1011-2; para ferro fundido não dá resposta, mas serve o lado de aço de uma ligação ferro fundido–aço.

Quando uma peça não se repara por soldadura

Tambores e discos de travão, peças sob pressão e peças cuja falha possa ferir alguém substituem-se. O mesmo para peças de desgaste em ferro fundido branco e ferro fundido oxidado por anos de serviço a quente, que volta a fissurar ao lado de cada cordão. No resto, se uma peça nova custar menos do que duas tentativas, compre a nova.

Perguntas frequentes

Porque é que o ferro fundido fissura ao soldar?

Pelo carbono — 2 a 4 % contra menos de 0,25 num aço soldável. Ao arrefecer depressa forma-se cementite branca e vidrada na zona afectada pelo calor, e essa parte-se com a tensão de contracção.

A frio ou com pré-aquecimento?

A frio com eléctrodos de níquel, cordões curtos e martelagem, para reparações que têm de aguentar. Com pré-aquecimento a 500 a 600 °C e arrefecimento lento, quando a zona tiver de ser maquinada depois — e para isso é preciso um forno.

Porquê martelar?

Porque deformar o cordão ainda quente alivia a tensão de contracção antes que ela rasgue a faixa frágil ao lado. Logo a seguir a cada cordão curto, com um cinzel rombo ou um martelo de agulhas.

Pode soldar-se ferro fundido com MIG?

Com fio de aço comum, não: o resultado é o mesmo que com um eléctrodo de aço — um depósito duro e uma fissura ao longo da linha de fusão. Existem fios à base de níquel para ferro fundido, e com eles as regras não mudam: cordões curtos, martelagem, pausa até a peça estar morna à mão. A tocha MIG convida a cordões longos e contínuos, exactamente o que o ferro fundido não aguenta, por isso numa reparação ocasional o eléctrodo de níquel é a ferramenta mais simples.

Que eléctrodo usar para soldar ferro fundido?

Um de níquel. Ni-CI (AWS ENi-CI) quando a reparação vai ser furada ou maquinada; NiFe-CI (AWS ENiFe-CI) para resistência, para ferro fundido nodular e para ligações a aço. Corrente contínua, eléctrodo no pólo positivo (DC+), cerca de 25 A por milímetro de diâmetro: 80 A para um eléctrodo de 3,2 mm.

Porque é que a soldadura fissura ao lado do cordão?

Porque é aí que está a parte mais fraca: a zona afectada pelo calor passou a ferro fundido branco duro, a contracção do cordão puxa por ela e a peça não consegue esticar. Basta uma causa: cordão demasiado longo, sem martelagem, sem pausas, eléctrodo de aço ou óleo nos poros.

Autor: , soldador e serralheiro civil Actualizado: