Fissuras no cordão

Três mecanismos diferentes com o mesmo nome. Distingui-los começa pela pergunta de quando a fissura apareceu — e não pela pergunta de com que cara ficou.

Três tipos de fissura em corte: longitudinal ao meio do cordão, na zona afectada pelo calor e arrancamento lamelar na chapa
O sítio e o momento separam os três mecanismos — e cada um exige uma correcção diferente.

Fissuras a quente

Aparecem na solidificação, quando entre os cristais já sólidos ainda há um filme de baixo ponto de fusão e a contracção o rasga. Favorecidas pelo enxofre e pelo fósforo, por metal depositado totalmente austenítico e por uma forma de cordão desfavorável: um cordão estreito e fundo fissura ao meio com mais facilidade do que um largo e raso.

Correcção: metal de base limpo, metal de adição com uns por cento de ferrite delta no inoxidável — ver soldar aço inoxidável — e uma forma de cordão com relação largura/profundidade acima de um.

Fissuras a frio

O mecanismo com três condições que têm de aparecer todas juntas: uma estrutura que endurece, hidrogénio e tensão de tracção. Falta uma, não há fissura — e é precisamente aí que a correcção actua.

Contra a estrutura actua um arrefecimento mais lento, ou seja, pré-aquecimento e energia suficiente: ver temperatura de pré-aquecimento e tempo t8/5. Contra o hidrogénio actua consumível seco e metal de base limpo. Contra a tensão actua uma sequência de soldadura que não encastra a peça.

Arrancamento lamelar

Uma fissura no metal de base paralela à superfície da chapa, em degraus. Aparece quando um cordão solicita a chapa à tracção na direcção da espessura e existem inclusões não metálicas alinhadas. Típico de cordões de ângulo espessos em juntas em T.

A correcção é de projecto: mudar a forma da junta para que a força de tracção não actue perpendicularmente ao plano da chapa — ou usar chapa com propriedades garantidas na direcção da espessura segundo a EN 10164.

Tolerância zero

As fissuras são inadmissíveis em todos os níveis de qualidade da ISO 5817. A razão não é severidade, é física: uma fissura tem uma ponta, e a tensão nessa ponta cresce à medida que ela abre. Um poro de tamanho fixo continua um poro de tamanho fixo; uma fissura cresce.

Perguntas frequentes

Porque é que a fissura só aparece no dia seguinte?

Porque o hidrogénio precisa de tempo para difundir até ao ponto de maior tensão. A fissura a frio aparece entre horas e dois dias depois de soldar — por isso as juntas críticas se inspeccionam com intervalo e não logo à saída da bancada.

Fissura a quente ou a frio — como distingo?

Pelo momento e pelo aspecto. A fissura a quente aparece na solidificação, corre ao meio do cordão no sentido longitudinal e tem os flancos oxidados. A fissura a frio vem depois, fica em regra na zona afectada pelo calor e tem superfícies de rotura limpas.

Pode soldar-se por cima de uma fissura?

Não. Ela continua a crescer por baixo do cordão novo. A fissura é totalmente goivada — com furos de paragem, se for preciso —, confirma-se a extremidade por líquidos penetrantes ou partículas magnéticas, e só depois se solda.

Autor: soldador Actualizado: